História

CINE-TEATRO S. PEDRO – HISTÓRIA DO EDIFÍCIO

A 1 de Agosto de 1947 iniciam-se às obras de construção do Cine-Teatro São Pedro, na actual Rua 25 de Abril, junto à Praça 8 de Maio e dos Paços do Concelho.

Esta nova praça afirmava-se como nova zona nobre da vila, rasgada por uma intervenção urbana talvez inspirada nas políticas urbanísticas de Duarte Pacheco para o Estado Novo, centrada no Edifício da Câmara Municipal e Paços do Concelho (Edifício construído em 1946) e enriquecida por imponentes edifícios privados dessa primeira metade do século XX, como a Vivenda Nazareth, a actual Casa da Cultura ou a casa de família da pintora Maria Lucília Moita.

O projecto original de Arquitectura do Cine-teatro S. Pedro pertenceu a José de Lima Franco (que seria também autor do projecto arquitectónico da Câmara Municipal) e Raul Tojal, do qual resultaria um edifício medianamente interessante em termos histórico-arquitectónicos, filiado na arquitectura “Português Suave” do Estado Novo .

Raul Tojal é sobretudo conhecido por algumas obras marcantes em Lisboa, nomeadamente os projectos de arquitectura para o Palladium, de 1932, para o Salão de Chá Imperium, de 1936 e para o salão de chá Suiça, todos em Lisboa. Nos anos 60, em colaboração com Manuel Moreira e Carlos Roxo (grupo que ficou conhecido pela designação de “Trio Maravilhas”), decorou numerosos espaços comerciais, nomeadamente a Loja das Meias em Lisboa, em 1961 (Rui Afonso SANTOS, 1995).”

Construído sem apoios ou subvenções, através de um grupo de 70 accionistas reunidos na Sociedade de Melhoramentos de Alcanena, liderada por António Mota, industrial de sucesso da indústria nacional de curtumes, o Cine-teatro, com 588 lugares, seria inaugurado apenas sete anos depois, a 20 de Novembro de 1954.
Arquitectura civil cultural, modernista. Cine-teatro de planta composta, de desenvolvimento longitudinal, com cobertura em telhado. Articulação ritmada da superfície das fachadas, sublinhando o jogo da luz e sombra. Funcionalismo do espaço interno, transparecendo no tratamento das fachadas.

Dentro dos edifícios construídos para cine-teatro, insere-se no grupo de auditórios de planta rectangular, de cena contraposta, com auditório comportando plateia e um balcão, além dos camarotes laterais para as autoridades. Tem fosso de orquestra e proscénio.

O edifício do cine-teatro, de volumetria e linhas modernistas, contrasta com o fronteiro edifício dos Paços do Concelho, de gosto ecléctico, de cunho nacionalista, construído pelo mesmo arquitecto, José de Lima Franco, e inaugurado em 1946.

O Espectáculo de inauguração é assegurado pela Companhia de Amélia Rey Colaço / Robles Monteiro que, do Teatro Nacional, traz três espectáculos. Em Prémio Nobel, peça de Fernando Santos e Leitão de Barros apresentada nessa noite, brilham, para além de Amélia Rey Colaço, Raúl de Carvalho e Varela Silva. No dia seguinte é Palmira Bastos a primeira figura da peça de Alejandro Casona, As Árvores Morrem de Pé, e Luís Filipe, Paiva Raposo e Raúl de Carvalho terminam o programa duplo, com a apresentação de A Ceia dos Cardeais. Ao intervalo e nos bailes que se seguem ao espectáculo, actua a Orquestra Boémia e o serviço de Bar está a cargo do Café Avis.

Durante duas décadas, o Cine-Teatro cumpriria o seu papel de dinamização cultural, por ele passando o melhor cinema (chegou a apresentar 4 sessões semanais) e algum do melhor teatro que saía de Lisboa. Algumas das grandes figuras do teatro nacional ficariam para sempre associadas a esta sala, com pedras evocativas existentes no Foyer do 1º Balcão: Laura Alves, Vasco Morgado, Rogério Paulo, Henrique Santana.

Em Outubro de 1969 o Cine-Teatro foi concessionado à Distribuidora Filmes Lusomundo.

Os finais da década de 70 marcam o início da decadência deste espaço, associada aos elevados custos de exploração de uma sala de grandes dimensões, às sucessivas crises económicas do país, à alteração dos hábitos de consumo e à inexistência de políticas ou financiamentos públicos que permitissem assegurar uma programação regular.

A generalizada crise de público de cinema, dos anos 80, acelerou a crise da sala que, por essa altura, apesar de esporadicamente cedida para projectos e iniciativas locais, apenas programava uma sessão semanal de cinema.
As reprises, artes marciais e a pornografia, associadas à falta de manutenção dos equipamentos e do edifício, anunciavam o encerramento.

Em 1986 a Empresa de Melhoramentos de Alcanena, sem capacidade económico-financeira para suportar custos de manutenção ou realizar obras de conservação essenciais ao seu funcionamento regular, encerra, definitivamente, o Cine-Teatro São Pedro.

As políticas municipais de então, orientadas para outro tipo de prioridades infraestruturais, a inexistência de uma política nacional para as artes e para os teatros, assim como a impossibilidade da participação pública em empresas privadas inviabilizaram qualquer solução que permitisse a reabertura do Cine-Teatro com uma programação regular.

Apesar disso, o Cine-Teatro São Pedro seria ainda utilizado para a realização de alguns espectáculos de teatro e Dança (como a Companhia de Dança de Lisboa) e Cinema, num período de recrudescimento da actividade cultural, no município.

Por volta de 1987/88 a acentuada degradação do equipamento tornou impraticável a sua utilização para qualquer actividade de palco, vindo a encerrar definitivamente para a programação artística e, pouco depois, para qualquer outro tipo de utilização.

Em 1994, a construção do Auditório Municipal, com 113 lugares, permitiu retomar a projecção regular de cinema e acolher outro tipo de eventos, como debates, conferências e recepções, suprindo, em parte, a carência de um auditório público na sede de concelho.

O Cine-Teatro São Pedro tornou-se então, como tantos outros edifícios similares um pouco por todo o país, uma ferida aberta na malha urbana e uma ferida aberta na memória da população que, recorrentemente, exigia a sua recuperação e a sua reabertura.

Em 1995, em face das pressões imobiliárias e da indefinição da Sociedade Proprietária quanto ao destino a dar ao edifício, António Mota doa à autarquia a sua posição de maior accionista (embora não maioritária) na sociedade.

Em 1996, uma semana depois da cerimónia formal onde, no Salão Nobre dos Paços do Concelho é concretizada essa doação, o telhado do Cine-Teatro desaba, submergindo a plateia e o balcão num mar de escombros que faria disparar os custos previsíveis de recuperação do equipamento e agravou a degradação dos restantes interiores.

Após aceitar a doação de António Mota, a Câmara Municipal de Alcanena inicia o processo negocial e administrativo tendente a permitir-lhe assegurar uma posição maioritária na Sociedade proprietária do equipamento (Sociedade de Melhoramentos de Alcanena, S.A.), única forma de viabilizar os financiamentos públicos necessários para a reabilitação do Cine-Teatro, que passaria agora, necessariamente, pela reconstrução e pela redefinição de todo o equipamento, nomeadamente quanto à sua dimensão e valências.

Logo em 1997 é aprovado um projecto de reconstrução pelo Ministério da Cultura, embora sem financiamento, ao abrigo de um programa entretanto lançado. Este Programa seria anulado e, em 1999, é lançado o Programa da Rede Nacional de Teatros e Cine-Teatros e a Rede Municipal de Espaços Culturais suportado pelo Programa Operacional da Cultura (POC).

Em 2002, seria aprovada nova candidatura, através da CCDRLVT, com um financiamento de 75%, correspondendo a 64,36%,do total de 1.736.666,06 € previsto no projecto inicial. O projecto é assinado pelo Arqt.º Filipe Teixeira Diniz – empresa Arquibúzios, Arquitectura e Paisagismo.

Em 2003, após aumento de capital da Sociedade de Melhoramentos de Alcanena, e controlo total sobre a empresa, é lançado o concurso público para a reconstrução do equipamento, que viria a ser ganho pelo consórcio Silvério e Melro, S.A. e Construções Pastilha e Pastilha, S.A. e em 23/12/2003 é adjudicada a obra pelo valor de 1.398.092,30€.

Em 2005, já com a obra a decorrer, são detectadas deficiências de projecto que conduzem à paragem temporária da obra e à realização de um projecto de alterações, tendente a melhorar aspectos técnicos e funcionais da sala. As obras são retomadas em Setembro de 2005 e finalizadas em Maio de 2008.

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